Como nasce nosso amor pelo cinema?
Às vezes fico pensando em como nasceu nosso amor pelo cinema, não sei se existe um momento exato, talvez seja uma sessão na televisão, um VHS alugado, um filme visto numa idade em que a gente ainda não entendia direito o que estava vendo, ou uma imagem qualquer que fica na cabeça por algum motivo. Até que, anos depois, ela volta sem que a gente saiba muito bem de onde veio. No meu caso, uma dessas lembranças está ligada a Tubarão, de Steven Spielberg, que vi pela primeira vez escondida dos meus pais, quando tinha uns seis anos, idade em que obviamente eu não deveria estar assistindo àquilo. O resultado foi um pequeno trauma, mas, ao mesmo tempo, alguma coisa naquela experiência me puxava de volta, porque o medo também vinha acompanhado de uma sensação que eu queria sentir de novo, aquela mistura de tensão, curiosidade e encantamento que só fui entender muito depois como uma das razões pelas quais me apaixonei pelo cinema. Foi um pouco por esse caminho que assisti a Até Ano que Vem, Talvez, curta de Lúcio Reis Filho.
Há no filme de Lúcio uma paixão muito bonita pelo cinema, por suas imagens, por aquilo que elas carregam e também pelo que deixam escapar, uma homenagem a filmes clássicos que não parece interessada apenas em citá-los, mas em reencontrar, através deles, uma certa experiência de cinema, como se aquelas imagens também fizessem parte de uma memória pessoal, mesmo quando não pertencem diretamente à nossa história. E essa relação fica ainda mais bonita quando descobrimos que o filme também é construído a partir de arquivos pessoais do próprio Lúcio, registros dele criança e, principalmente, da época da escola, incluindo imagens da oitava série, porque aí o arquivo deixa de ser uma coisa morta, guardada para provar que alguma coisa aconteceu, e passa a ser matéria para imaginar, lembrar e até inventar aquilo que não está ali, a gente olha para uma imagem antiga e, sem perceber, começa a preencher seus espaços, imaginando o antes, o depois, a vida daquelas pessoas quando a câmera parou.
Isso me fez lembrar de Aniversário do Pedro (2011), de Cíntia Domit Bittar, outro filme que parte de um registro ligado à memória pessoal, aparentemente pequeno e íntimo, e ganha outra vida quando passa pelo cinema, fazendo com que aquilo que era lembrança de alguém possa se tornar lembrança de quem nunca esteve ali, e é uma coisa que me interessa muito nos filmes de arquivo, essa passagem do particular para alguma coisa que já não pertence a ninguém sozinho.
Em Até Ano que Vem, Talvez, essa memória vem acompanhada de uma sensação estranha, quase fantástica, há fantasmas de filmes, de lugares, de um tempo que já passou, e o cinema tem mesmo alguma coisa de fantasmagórico, uma pessoa pode ter morrido há décadas e continuar jovem diante da câmera, uma casa pode não existir mais, mas continua ali, intacta, dentro de um plano, o passado ganha corpo outra vez e, por alguns instantes, parece que aquilo que desapareceu encontrou uma maneira de continuar existindo. A estranheza era a alma do passado analógico, a textura da imagem, os ruídos, a luz, aquelas pequenas imperfeições, tudo parece familiar e distante ao mesmo tempo, “o estranho é sempre familiar”, como se diz no próprio filme, e talvez seja justamente por isso que essas imagens tenham tanta força, porque o cinema também é feito de reconhecer alguma coisa que não conhecemos, de olhar para uma história que não é nossa e encontrar nela alguma coisa que parece estranhamente próxima.
Lúcio atravessa essa fronteira entre memória e invenção, entre o que foi e o que poderia ter sido, e o próprio filme nos lembra que “o cinema é o que já foi ou o que poderia ter sido”, uma frase que me parece resumir muito do que está em jogo ali, porque uma imagem registra o passado, mas nunca consegue registrar tudo, sempre sobra alguma coisa fora do quadro, e é nesse espaço que a imaginação entra, preenchendo as lacunas, criando possibilidades, inventando continuidades para aquilo que a câmera deixou para trás.
Por isso gosto de pensar que Até ano que vem, talvez é menos uma coleção de referências cinematográficas do que uma declaração de amor, aos filmes, claro, mas também à experiência de ser espectador, àquilo que acontece quando uma imagem de outro tempo encontra a nossa própria memória e passa a fazer parte dela, mesmo que aquela imagem nunca tenha pertencido à nossa vida.
E há uma coisa no título que fica ainda mais bonita quando penso que boa parte desse arquivo vem da escola, especialmente da oitava série, porque “até ano que vem” tem alguma coisa de despedida, mas também de promessa, é aquela despedida que a gente faz quando ainda não sabe exatamente o que está deixando para trás, a gente sabe que vai mudar de turma, de série, de fase, que alguns amigos continuarão por perto e outros talvez desapareçam da nossa vida, só não sabe ainda quais deles vão reaparecer anos depois, nem quem nós mesmos seremos quando isso acontecer. O cinema também funciona um pouco assim, a gente se despede de uma imagem acreditando que terminou ali, mas ela pode reaparecer muitos anos depois, quando já somos outra pessoa, um filme que não significou tanto aos quinze anos pode dizer alguma coisa completamente diferente aos quarenta, uma lembrança guardada por tanto tempo pode encontrar um novo sentido quando finalmente voltamos a ela.
No fim, acho que é isso que faz uma história ser universal, não o fato de contar alguma coisa que aconteceu com todo mundo, mas a capacidade de fazer alguém reconhecer como sua uma experiência que nunca viveu, talvez seja também assim que nasce nosso amor pelo cinema, quando uma imagem deixa de pertencer ao filme e começa, de algum jeito, a pertencer à gente. E, assim, seguimos voltando, para rever filmes, imagens, lugares e pessoas que já não existem da mesma maneira, não para recuperar o passado, porque isso é impossível, mas para descobrir o que ele ainda pode fazer com a gente, Até Ano que Vem, Talvez é um título que parece despedida, mas deixa uma fresta aberta, como certas imagens, como certas amizades, como o próprio cinema.

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