Memória da Princesa Mumbi (2025)

Eu fiquei pensando em Memória da Princesa Mumbi (2025) por um motivo que não tem exatamente a ver com a pergunta mais óbvia que o filme provoca. Sim, ele usa inteligência artificial, sim, a própria história discute o uso da IA e, sim, existe uma contradição enorme em um filme que questiona uma tecnologia enquanto depende dela para construir parte considerável do mundo que apresenta. Tudo isso me interessa, mas o que ficou comigo foi outra pergunta: “o que ainda precisamos preservar quando tudo pode ser fabricado?”.

Dirigido pelo suíço-queniano Damien Hauser, o filme imagina uma África de 2093 depois de uma grande guerra ocorrida na década de 2070, resultado de um período de grande depressão associado ao uso das tecnologias. Depois da catástrofe, regiões inteiras proibiram computadores e retomaram formas tradicionais de organização, com reinos substituindo os antigos modelos de governo. É nesse mundo que Kuve (Ibrahim Joseph), um jovem cineasta documentarista europeu, chega a Umata para registrar os efeitos daquela guerra. Ele vem acompanhado de uma pequena equipe e parece saber muito bem o que procura, trauma, sofrimento e alguma coisa que possa virar uma boa história. Só que o próprio documentário começa a escapar de suas mãos com a chegada de Mumbi (Shandra Apondi). Ela entra na equipe como atriz e rapidamente passa a questionar o roteiro, as imagens, as manipulações digitais e as intenções de quem está por trás da câmera, quando percebe que Kuve não está apenas registrando aquela comunidade, mas tentando encontrar uma história que corresponda ao que imagina que uma história precisa ser. Quando ela pergunta “Vocês estão fazendo um documentário sobre IA ou sobre pessoas?”, a frase poderia facilmente virar uma tese sobre o filme, mas ganha outra força porque, naquele momento, estamos vendo justamente um documentário que começa a deixar de ser o documentário que sua equipe pretendia fazer.

Gosto muito dessa brincadeira, quando a equipe chega com um projeto, encontra uma personagem que não aceita a manipulação e, aos poucos, o próprio filme vai mudando de assunto. A ficção científica, o romance, o falso documentário e a tragédia começam a se misturar, enquanto Kuve tenta continuar controlando uma narrativa que já não pertence inteiramente a ele. Mumbi carrega ainda outra história, pois quando criança foi prometida a um príncipe de um reino vizinho, com quem deveria se casar ao completar 21 anos. Mesmo sem saber inicialmente dessa promessa, os dois se envolvem e ele carrega o receio de se decepcionar novamente no amor, enquanto Mumbi precisa lidar com um futuro que já havia sido decidido por outras pessoas. É nesse ponto que percebi que estava gostando mais do filme quando ele se permitia ser uma história contraditória do que quando tentava me explicar uma ideia. Mumbi não existe apenas para representar uma posição sobre a inteligência artificial, ela também está tentando escapar das histórias que os outros inventaram para ela, assim como Kuve tenta escapar da história que inventou para si mesmo. Existe algo importante no fato de ser justamente um cineasta europeu que chega a Umata para contar a história daquela comunidade. Ele chega com uma câmera, uma equipe e uma ideia muito clara do que procura, como se a experiência dos outros precisasse primeiro passar pelo seu olhar para se tornar uma narrativa. A questão não é apenas quem registra, mas quem decide o que merece ser registrado e qual imagem de um lugar interessa a quem vem de fora.

O documentário queria encontrar uma tragédia, tristezas, depressão, mas encontra sorrisos e pessoas que não cabem tão facilmente nela. É uma crítica que me parece especialmente interessante porque não transforma o olhar estrangeiro em um vilão simples, mas mostra como ele pode chegar carregado de expectativas, procurando sofrimento, exotismo ou uma narrativa que confirme aquilo que já imaginava encontrar. Umata, esse lugar surreal e ao mesmo tempo palpável, acompanha essa mesma lógica. O futuro criado por Hauser não parece uma versão africana daquele amanhã tecnológico que o cinema ocidental passou décadas imaginando. Depois da guerra, a tecnologia desapareceu e a vida precisou se reorganizar com o que restou. Tem barcos, castelos, reinos, sucata, máquinas improvisadas que, por algum motivo, aprenderam a voar. Nas arquiteturas, madeira, metal, fios, chapas, tudo remendado, como se alguém tivesse juntado peças diferentes e decidido que, de algum jeito, aquilo ia funcionar. Há algo dos filmes do Studio Ghibli nessa invenção artesanal, nessa vontade de construir um futuro que não esconde suas costuras e muito das invenções retrofuturistas do artista an McQue.

É inevitável, também, pensar no afrofuturismo diante de um filme como esse, embora Hauser diga que não partiu conscientemente desse conceito e prefira pensar em Memória da Princesa Mumbi simplesmente como uma ficção científica africana. Ainda assim, gosto de aproximá-lo da ideia de afrofuturismo discutida por Kênia Freitas, especialmente dessa possibilidade de imaginar e especular sobre experiências negras atravessando passado, presente e futuro. Umata parece fazer justamente esse movimento, inventando outro caminho a partir de uma África que reorganizou sua relação com a tecnologia e com seus modos de vida. Eu gosto especialmente da contradição porque ela impede que o filme fique confortável em uma posição de superioridade diante da IA. Em vez de simplesmente condenar essas ferramentas, a obra também admite que elas podem participar de um processo de imaginação, experimentação e elaboração de uma perda. Depois da morte do irmão adolescente em um acidente de motocicleta, Hauser concebeu o filme como uma espécie de colagem de momentos bonitos, uma tentativa de lidar com o luto e guardar alguma coisa diante daquilo que já não podia ser recuperado. 

Memória da Princesa Mumbi é irregular, às vezes ingênuo, às vezes inventivo até demais, e algumas ideias parecem mais interessantes do que a maneira como são realizadas. Ainda assim, existe uma energia ali que me ganhou, justamente porque o filme não parece muito interessado em parecer impecável. Como já sabemos, o cinema sempre foi uma máquina de criar imagens e lembranças, mas agora temos ferramentas capazes de produzir imagens de coisas que nunca aconteceram. Por isso, o paradoxo do longa me interessa mais do que decidir se o uso de IA é justificável ou não e, até prefiro que esse desconforto permaneça, até porque o que acaba ficando comigo são coisas muito menos espetaculares, a risada de Mumbi, uma conversa sem importância, uma dança ao fundo, duas pessoas que não sabem que estão vivendo uma lembrança. No meio de tanta tecnologia e tanta discussão sobre o futuro do cinema, termino o texto pensando que a resposta para aquela pergunta inicial do texto, são: as pessoas, o que elas sentem, dizem e inventam, aquilo que acontece entre uma imagem e outra e que nenhuma tecnologia consegue substituir completamente.



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