“Somente hoje, neste cinema (ou boteco), você está autorizado a se divertir adoidado!”
A frase que abre Tropical SOV - Bizarro Sci-Fi Samba já dá o tom e, depois de assistir ao filme, parece até uma espécie de contrato com o espectador. O segundo volume da antologia reúne 23 realizadores e diretoras de diferentes partes do país, em várias gerações do cinema independente brasileiro, para contar 21 histórias atravessadas pela ficção científica. O projeto é organizado e produzido por Petter Baiestorf, Jonathan Rodrigues e Keisy Yamaki, em parceria com diversas produtoras independentes e muita gente com muitas ideias e muita possibilidade de dar errado, o que aqui é quase uma qualidade.
O filme começa antes mesmo dos créditos iniciais com Cachoeira de Arroz, de Gurcius Gewdner, que transforma ócio, prazer e lentidão em uma espécie de manifesto contra tudo aquilo que vive sugando nossa energia. É uma abertura bem ao estilo Gurcius, delirante e debochada, que já avisa que ninguém veio aqui para fazer uma ficção científica muito preocupada em manter a compostura. Depois entram os créditos e a antologia começa a desfilar suas criaturas, alienígenas, mutações, apocalipses, cientistas, viagens estranhas e outras ideias que provavelmente não sobreviveriam muito tempo numa reunião de pitch mais séria. É aí que o Tropical SOV encontra sua graça, já que a ficção científica dos anos 1950 e 1980 está por toda parte, nas histórias de invasão alienígena, monstros, ameaças espaciais, futuros distópicos e cenários pós-apocalípticos, só que tudo passa por um filtro muito mais artesanal, brasileiro e sem qualquer pudor. Se aqueles filmes tinham seus monstros e suas ameaças radioativas, aqui temos sangue, gore, bizarrices, tesão e uma quantidade de falos que talvez merecesse uma categoria própria.
Um Amor de Outro Mundo, de R. M. Luckfinger, pega um fazendeiro capinando debaixo de um sol de rachar e coloca no caminho dele uma aparição que cai do céu. Os Aliens Também Dançam Discoteque, de Jonathan Rodrigues, imagina extraterrestres fãs de música disco vindo à Terra para estudar nossa espécie e escolhendo, digamos, um espécime pouco representativo da humanidade. É ficção científica, mas parece que alguém deixou a porta do boteco aberta durante a produção.
Tem um prazer especial em perceber como cada realizador encontra sua própria maneira de lidar com a precariedade. Hex, de Tainá Rei, carrega aquele espírito maravilhoso do “o que eu tenho em casa?”, fazendo da limitação de recursos uma possibilidade de invenção. Isso me parece muito ligado à própria história do shot on video, essa tradição de cinema feito com câmeras domésticas, VHS, equipamentos baratos e uma disposição quase teimosa de resolver as coisas com aquilo que está disponível. Não é apenas uma questão de imagem ou de nostalgia pelo vídeo, mas sim uma forma de fazer cinema que aceita a gambiarra como parte do processo e não fica pedindo desculpas por isso.
KraninsomniaK, de Luciano de Miranda, leva essa ideia para um lugar ainda mais divertido porque o próprio bloqueio criativo vira matéria do filme. Lucikrânio é um personagem que está no último dia do prazo para entregar seu segmento de uma antologia shot on video e precisa lidar com desespero, inveja, insônia e tesão. É o tipo de metalinguagem que combina demais com uma produção como essa, porque a própria dificuldade de fazer o filme passa a fazer parte do filme. Já O Lambe-Lambe que Veio do Espaço, de Flávio Carnielli, joga uma Aline Aranha dentro de uma nave esquisita e diante de um Alien Aranha, numa dessas premissas que parecem ter sido inventadas justamente porque seria divertido descobrir como filmá-las E tem muito disso espalhado pela antologia, como em Fobia, de Patty Fang, que parte de uma calma leitura de HQ para pesadelos com aranhas; A Garota e a Horta das Delícias Genitais, de Barbi Cauzzi, leva a experiência para um território em que o título já avisa que vamos encontrar algumas piroquinhas, e muitas; Calango Hediondo, de Kadu Hammett, brinca com o imaginário dos kaijus e dos Megazords, mas com muita sedução, tesão e sexo. Amor Estranho Amor no Planeta Terra, de Pomba Cláudia, coloca uma extraterrestre diante de questões bem terrestres.
Também tem O Holocausto Nuclear Não Será Televisionado, de Petter Baiestorf, que passou recentemente com outro corte no II Noturno Festival Internacional de Cinema do Recife. O filme volta ao cenário pós-holocausto nuclear para acompanhar um integrante de uma gangue punk envolvido numa espiral de desejos, ataques e mutações. É mais um exemplo que ajuda a perceber como ele conversa com essa tradição de ficção científica e cinema de exploração que atravessa a antologia, mas sem perder a identidade completamente particular do Baiestorf.
No meio disso tudo, o que mais me interessa é a própria existência desse encontro. São realizadores de diferentes lugares e gerações, reunidos por uma produção que não parece interessada em uniformizar seus filmes para que tudo fique bonitinho. Pelo contrário, cada segmento chega com sua própria ideia de imagem, humor e absurdo e, há quem dialogue mais diretamente com o sci-fi clássico, quem vá para o terror, quem prefira a animação, quem mergulhe no experimental e quem simplesmente pareça ter acordado com uma ideia completamente absurda na cabeça e decidido que aquilo precisava virar filme. Quando tudo isso encontra o subtítulo "Bizarro Sci-Fi Samba", deixa de parecer apenas uma ótima combinação de palavras e começa a fazer sentido como proposta, pois o filme não está tentando reproduzir uma ficção científica que já existe e sim pegando suas referências, misturando com o cinema de horror, comédia, erotismo, política, cultura pop, precariedade e invenção e vendo o que nasce dessa mistura.
Possivelmente, seja esse o meu maior carinho pelo projeto Tropical SOV, já que existe uma liberdade muito grande em assistir gentes fazendo cinema com o que tem à mão, sem transformar a falta de dinheiro em vergonha e sem precisar fingir que a produção independente brasileira deveria se parecer com outra coisa. Às vezes a câmera treme, o efeito aparece, a ideia é completamente absurda e o filme segue mesmo assim, quase como uma celebração do direito de experimentar, errar, exagerar e se divertir, igual quando éramos crianças quando brincávamos de brincar.






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