"Às vezes tomamos decisões de merda. No fundo, sabemos que estamos no caminho errado. Mas seguimos mesmo assim. E depois, não importa quanto tempo passe, sofremos as consequências, para o bem ou para o mal."
Mehdi (Driss Ramdi) já sabe disso quando começa a contar sua história em Por Detrás das Palmeiras, de Meryem Benm’Barek e, talvez não exista maneira melhor de apresentar um personagem que passa boa parte do filme tentando convencer a si mesmo de que ainda tem algum controle sobre as consequências das próprias escolhas.
Mehdi vem de uma família de classe média alta e mora em Tânger com a mãe, professora, e o pai, dono de uma construtora onde ele passou a trabalhar depois de não conseguir realizar o sonho de ser arquiteto. Existe, portanto, uma certa frustração na vida desse personagem, a sensação de ter chegado a um lugar diferente daquele que imaginava para si. Ele não é alguém sem perspectivas, nem exatamente alguém tentando escapar da pobreza. Seu incômodo vem de outro lugar. Ele namora Selma (Nadia Kounda), que trabalha numa padaria local e os dois vivem um relacionamento ainda casto, atravessado pelas expectativas de casamento e pelas regras de uma sociedade em que o sexo antes do casamento é ilegal para cidadãos marroquinos. Nas primeiras cenas, a relação entre eles é construída com uma delicadeza que me ganhou. Selma registra o namoro em selfies e vídeos, e esses pequenos fragmentos dão ao casal uma intimidade leve, espontânea, quase doméstica. Existe desejo entre os dois, mas também existe a tentativa de imaginar um futuro juntos.
É justamente quando esse futuro parece começar a tomar forma que Marie (Sara Gireaudeau) aparece. Francesa, rica e pertencente a um universo muito distante daquele em que Mehdi circula, ela está em Tânger acompanhando os pais, donos de uma casa luxuosa na casbá. A aproximação entre os dois não acontece num vazio, Mehdi já carrega suas insatisfações, suas vontades e a curiosidade por uma vida que, de repente, parece estar muito mais próxima, então ele começa a mentir. Primeiro, talvez, para preservar uma coisa, depois, para esconder outra. Quando percebe, Mehdi já está preso numa sequência de escolhas que exigem novas mentiras para serem sustentadas. O que começa como desejo vai ganhando contornos de obsessão, oportunismo e desespero. Quanto mais ele tenta controlar a situação, mais ela escapa das suas mãos.
É aí que Por Detrás das Palmeiras me interessa mais. Não tanto pelo triângulo amoroso em si, que é até previsível, mas por acompanhar alguém que parece saber, desde o início, que está entrando num caminho complicado e continua andando mesmo assim. A frase que abre o filme deixa isso muito claro. Mehdi não é alguém que simplesmente não percebe as consequências, ele percebe sim, só não consegue, ou não quer, parar. Ao mesmo tempo, o filme tenta fazer desse percurso individual algo maior. A relação de Mehdi com Marie coloca em cena diferenças de classe, de origem e de poder que não desaparecem só porque existe desejo. Ela pertence a um universo estrangeiro, rico e protegido, enquanto ele, apesar da posição confortável de sua família, continua submetido a outras regras e limitações. O romance acaba funcionando como uma espécie de passagem para um mundo que o fascina justamente porque não é completamente seu.
E gosto que o filme não trate essa aproximação apenas como uma questão de desejo sexual, há também uma fantasia de pertencimento. Mehdi parece enxergar naquela relação uma possibilidade de experimentar outra versão de si mesmo. Só que, para chegar até ela, começa a deixar pelo caminho aquilo que já tinha construído. É nesse ponto que as questões sociais propostas por Benm’Barek ficam mais interessantes, mas também é onde senti que o filme poderia ir mais longe. Por Detrás das Palmeiras aborda temas que me interessam bastante, como classe, desigualdade, relações entre marroquinos e estrangeiros, desejo, tradição e as marcas de uma presença europeia que ainda permeia a vida cotidiana do país. A própria paisagem ajuda a construir esse contraste: de um lado, o Marrocos vendido como cenário paradisíaco, do outro, aquilo que permanece escondido por trás dessa imagem. Só que algumas dessas ideias parecem maiores do que o filme consegue desenvolver. Há momentos em que sinto que ele abre uma discussão e, antes que ela ganhe corpo, já está correndo para a próxima, como o triângulo amoroso, as questões de classe ainda cruzadas pelo colonialismo, as diferenças culturais e as relações de poder poderiam produzir um filme bem mais incômodo do que aquele que Benm’Barek entrega.
Também fiquei dividida com a maneira como as personagens femininas são colocadas dentro dessa engrenagem. Selma começa sendo uma presença muito viva, construída a partir daqueles registros feitos por ela mesma, e aos poucos vai sendo empurrada para as consequências das escolhas de Mehdi. Marie, por sua vez, carrega todo o peso simbólico do universo ao qual ele deseja se aproximar. Existe uma discussão interessante sobre o lugar dessas mulheres nessa estrutura, mas sinto que o filme acaba tão concentrado em Mehdi, em suas ações e nas consequências delas, que pouco espaço sobra para que essas personagens existam para além do impacto que provocam ou sofrem na trajetória dele. Em alguns momentos, inclusive, situações violentas ou desconfortáveis são colocadas em cena antes que o filme consiga elaborar completamente o que quer dizer com elas. Ainda assim, há algo bastante eficaz nessa história de alguém que sabe que está fazendo merda e continua fazendo. As consequências não aparecem de uma vez, vão se acumulando. Uma mentira pede outra, uma escolha compromete a seguinte, e aquilo que parecia administrável vai se tornando impossível de controlar.
Por Detrás das Palmeiras fica para mim nesse lugar entre o mediano e o bom, com ideias muito mais interessantes do que algumas das soluções encontradas para colocá-las em cena. Mas a frase de abertura continua funcionando como uma espécie de chave para o filme. Às vezes a gente sabe exatamente onde está se metendo, sabe que determinada escolha pode dar errado e, mesmo assim, escolhe continuar. E aí quando percebe que não dá mais para voltar, resta descobrir quanto tempo vai levar até a conta chegar.




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