“Quem somos nós antes do espermatozoide? O que você tem esquecido no meio da rua?"
As perguntas aparecem logo no início de Nosso Segredo, numa conversa entre o taxista Gilson e Marcelo, um passageiro interpretado por Mateus Aleluia. São perguntas quase desproporcionais à banalidade daquele encontro, dessas que surgem do nada e, por isso, ficam rondando a cabeça. Pode ser uma boa porta de entrada para o filme de Grace Passô. Antes de falar sobre família, luto ou segredo, seu primeiro longa parece interessado em coisas mais difíceis de organizar, como de onde viemos, o que carregamos sem saber e o que permanece quando alguém deixa de estar aqui.
Assisti a Nosso Segredo em sua pré-estreia no Recife, bem no dia seguinte da premiação do filme pelo Festival de Gramado, onde recebeu os Kikitos de Melhor Filme, Melhor Fotografia e Direção de Arte. A sessão, no Cinema da Fundação, ainda contou com a presença de Grace Passô para um debate depois da exibição, o que tornou a experiência especialmente interessante. Algumas das escolhas que já estavam diante dos meus olhos puderam ser pensadas a partir das próprias palavras da diretora, principalmente a relação entre a casa, a câmera e essa sensação constante de não conseguirmos apreender tudo o que acontece dentro daquele espaço.
Grace já vinha construindo uma trajetória em que corpo, palavra e estranhamento nunca estiveram muito separados. Atriz, dramaturga e diretora, passou por filmes como Vaga Carne (2019) e República (2020), obras em que a realidade cotidiana vai sendo deslocada por alguma coisa que não se deixa apreender tão facilmente. Nosso Segredo nasce de uma história escrita para o teatro no início dos anos 2000 e revisitada por ela em 2020, quando começou a reescrevê-la pensando no cinema. A família, os segredos e a memória continuavam no centro, mas a linguagem precisava mudar. E uma das coisas mais interessantes do filme é justamente perceber Grace tentando vencer o realismo. Ela mesma diz que quis filmar a história de maneira realista, com uma atuação de textura realista, mas colocando os personagens diante de uma situação surreal. Parece uma contradição, mas é dessa fricção que o longa tira boa parte de sua força. A vida pode ser absurda sem que as pessoas deixem de agir como se tudo estivesse perfeitamente dentro da ordem.
A história acompanha uma família negra de Belo Horizonte que tenta seguir em frente depois da morte do pai. Gilson (Robert Frank), Grazi (Jessica Gaspar), Guto (Flip), Tutu (Efraim Santos), Suely (Ju Colombo) e Anamélia (Marisa Revert) vivem o mesmo acontecimento, mas não necessariamente o mesmo luto. Para Suely, é a perda do marido; para os filhos, a perda do pai. Para cada um deles, a ausência ocupa um lugar diferente, e é bonito perceber como o filme não tenta transformar essa dor em uma experiência única. O luto aparece tanto na quietude do silêncio quanto no ruído do movimento, na pessoa que se fecha, naquela que não consegue parar, naquela que procura uma distração, naquela que simplesmente não sabe o que fazer com o próprio corpo.
A composição familiar é importante porque o filme não tem um único protagonista. Ele vai saltando de um personagem para outro, criando pequenas frestas para que possamos enxergar mundos que, dentro daquela mesma casa, parecem não se tocar. Mas, mesmo nessa configuração, Tutu, uma criança de 6 anos, ocupa um lugar particular. O filho mais novo não é apenas quem guarda o segredo que movimenta a história, é também, muitas vezes, por onde passamos a enxergar aquela família. Existe uma espécie de cumplicidade entre ele e nós, espectadores: sabemos que Tutu sabe alguma coisa, mas ainda não sabemos exatamente o quê. A infância não aparece aqui como sinônimo de inocência, mas como outra forma de perceber o que está acontecendo. Enquanto os adultos tentam lidar com a perda à sua maneira, Tutu observa, absorve e carrega aquilo que ninguém mais parece conseguir ver. O segredo vai crescendo dentro dele até não caber mais.
Acredito que seja também por isso que o estranhamento funcione tão bem no filme. Há alguma coisa estranha naquela casa, mas não sabemos exatamente o que é, e o filme tampouco parece interessado em nos dar essa resposta. O mistério não funciona como um quebra-cabeça que precisa ser resolvido, mas como parte daquele desconforto de não saber. E Tutu, com seu olhar de criança, nos conduz por esse lugar em que o possível e o impossível ainda não estão tão bem separados. É aí que Nosso Segredo me faz pensar no afro-surrealismo, não porque seja necessário colocar o filme dentro de uma categoria fechada, mas porque existe uma proximidade interessante entre a forma como Grace lida com o surreal e uma tradição recente do cinema negro brasileiro que encontrou no estranho uma maneira de falar da experiência negra sem precisar submetê-la o tempo inteiro ao realismo da denúncia.
Lembro de Egum (2020), de Yuri Costa, um exemplo forte disso, já que o curta parte do terror, da memória e dos traumas da experiência negra e transforma o sobrenatural em uma extensão dessa realidade, e não em sua negação. Nosso Segredo não está interessado no mesmo tipo de horror, nem precisa estar, mas os dois compartilham uma possibilidade que me interessa muito: o estranho não aparece para nos afastar da realidade, mas para permitir que enxerguemos melhor aquilo que ela esconde. Grace fala em surrealismo também a partir de uma perspectiva muito brasileira. Ela já disse que gosta da ideia de que “a realidade é realmente abstrata” e que o surreal pode ser uma forma particularmente adequada de representar a própria história do Brasil. Em vez de pensar o surreal como fuga, Nosso Segredo o trata como uma espécie de exagero da realidade, o que ajuda a entender por que o filme é tão sensorial.
E falando em sensorial, outro dia comentei sobre ter visto na Filmicca O Céu Não Sabe Meu Nome, de Carol AÓ, e sobre essa experiência de alguns filmes brasileiros recentes que parecem pedir menos uma interpretação imediata e mais uma entrega dos sentidos e Nosso Segredo me provocou algo parecido. A câmera, quase sempre muito próxima dos corpos, a luz, o som e os movimentos constroem uma atmosfera tão física que você quase sente o cheiro da vela acesa, a textura das paredes, das peles, o peso do ar. Não é só uma questão de fotografia bonita, mas o espaço naquela casa parece ter temperatura.
E já que chegamos à casa, ela é o grande corpo dessa história e, por que não, um dos seus grandes personagens. Grace contou no debate da pré-estreia que não imaginou inicialmente sua própria casa quando escreveu o roteiro. Mas, quando encontrou aquele espaço, ele passou a responder ao que já estava procurando: uma casa que pudesse ser descoberta aos poucos, quase como um labirinto. A câmera se perde pelos cômodos, entra e sai dos espaços, observa através das frestas e, primeiro conhecemos pedaços, depois começamos a entender as relações entre eles. A casa vai se revelando junto com aquela família. Não à toa Grace a trata como uma personagem. Ela guarda o segredo, o delírio e o centro emocional da história, mas também carrega a metáfora, já que a casa está em reforma ao mesmo tempo em que aquela família tenta se reconstruir depois da morte do pai. Existe alguma coisa inacabada nos dois e, por isso, que a fotografia premiada em Gramado seja tão importante para a experiência do filme. A luz além de iluminar aquele espaço, ajuda também a escondê-lo ao mesmo tempo que o revela aos poucos.
Isso me levou rapidamente a Criadas, de Carol Rodrigues, outro filme brasileiro em que a casa não é apenas cenário, mas um espaço carregado de memória, relações raciais, afetos e fantasmas. O filme de Carol também transita entre o cotidiano e o sobrenatural para falar de experiências negras que dificilmente caberiam apenas numa chave realista. Há algo interessante nessa recorrência de casas em filmes dirigidos por mulheres negras brasileiras, pois elas deixam de ser apenas lugares onde as personagens vivem para se transformar em arquivos. Guardam aquilo que as pessoas não dizem, relações de poder, afetos, traumas e histórias familiares, podendo também se tornar espaços de catarse.
Uma outra passagem de que gosto muito na obra de Grace é quando Grazi assiste ao A Noite dos Mortos-Vivos, de George Romero. A referência ganha força porque o filme também transforma uma casa em espaço de proteção e confinamento e existe uma ameaça do lado de fora, os mortos que cercam os personagens, mas a segurança daquele interior vai se desfazendo à medida que os próprios vivos passam a representar uma ameaça uns para os outros. No longa de Grace, existe um mundo lá fora, mas aquilo que assombra aquela família vem de dentro, mas não é exatamente uma ameaça externa invadindo a casa, e sim a perda, o silêncio, o segredo, aquilo que não foi elaborado. O monstro, quando existe, talvez esteja menos naquilo que chega de fora do que naquilo que uma família não consegue dizer. É uma maneira muito particular de se aproximar do horror, sem precisar construir um monstro convencional. A própria impossibilidade de elaborar a perda se transforma em uma presença incômoda e ameaçadora.
A música de Amaro Freitas reforça essa sensação ao atravessar a casa, alternando momentos de alegria e suspensão com a tristeza da memória. Os personagens escutam música também como uma forma de se acalmarem, como se o som pudesse organizar aquilo que as palavras não conseguem. O piano delicado e misterioso da trilha parece muitas vezes dizer que há alguma coisa acontecendo mesmo quando nada está acontecendo diante da câmera. O mesmo vale para a presença de Lêda, a vizinha branca interpretada por Gláucia Vandeveld. Ela aparece de maneira quase intrusiva, repetidamente, como um corpo que insiste em atravessar aquele espaço. É uma presença pequena dentro da narrativa, mas que pode ser lida também por uma chave decolonial, como se até mesmo naquele momento de recolhimento e reorganização de uma família negra existisse um olhar externo que continua tentando entrar.
É curioso pensar que uma história escrita há mais de vinte anos tenha encontrado agora uma forma tão contemporânea de existir. Não quero aqui definir Nosso Segredo como horror, realismo mágico ou afro-surrealismo, mas pensar no que acontece quando essas linguagens se encontram. Egum, O Céu Não Sabe Meu Nome, Criadas e agora o filme de Grace são obras muito diferentes, mas compartilham esse desejo de aproximar o cotidiano do estranho, sem tratar o fantástico como uma ruptura da realidade. Talvez o estranho seja apenas a realidade vista de outro lugar e aí volto à pergunta do começo: “Quem somos nós antes do espermatozoide?”





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