Quando os corpos que morriam começam a escrever as regras
Saí de Acampamento Miasma - Adolescência, Sexo e Morte pensando muito em tudo que tinha acabado de ver, e esse texto nem é de longe o tanto que escrevi e gostaria de ter postado. Mas há limites, né?! Também saí com uma coisa bem mais simples na cabeça: eu estava com vontade de gostar desse filme e gostei. Não embarquei tanto em Eu Vi o Brilho da TV (2024) longa anterior de Jane Schoenbrun, e isso fez com que eu chegasse a esse com uma curiosidade ainda maior. Queria ver o que ela faria com um gênero que conheço, gosto e sobre o qual já pensei e problematizei bastante.
Talvez o mais curioso seja que o próprio filme começa falando sobre isso. Acampamento Miasma é uma franquia fictícia de slasher dos anos 1980 que chegou ao seu 14º filme carregando consigo toda uma coleção de exageros, clichês e problemas que foram se acumulando junto com as continuações. A abertura faz uma espécie de passeio por essa história através de uma montagem de cenas dos filmes anteriores. É engraçado, exagerado e, ao mesmo tempo, uma maneira muito eficiente de apresentar o que Schoenbrun pretende fazer: brincar com um gênero já tão revisitado e que até suas contradições viraram parte da mitologia.
Kris Williams (Hannah Einbinder) é uma jovem cineasta queer escolhida para comandar o reboot da franquia. Obcecada pelo filme original, ela decide procurar Billy Presley (Gillian Anderson), sua estrela e antiga garota final, que abandonou Hollywood e vive reclusa no mesmo acampamento onde tudo começou. Billy, no entanto, parece ter ficado muito mais próxima daquele universo do que Kris imaginava. Ela acredita que Little Death, a Pequena Morte (Jack Haven), assassino da franquia, continua vivo no fundo do lago e está apenas esperando a hora de voltar.
Gosto de como Acampamento Miasma consegue fazer essa história parecer absurda e familiar ao mesmo tempo. Porque a franquia inventada por Schoenbrun tem 14 filmes, mas a sensação que temos é de que conhecemos muito bem aquele tipo de filme. Já vimos o assassino, o acampamento, a final girl, os adolescentes, as mortes absurdas, os moralismos, as continuações que parecem existir apenas porque alguém descobriu uma maneira de colocar o mesmo monstro em outro cenário. E aí comecei a pensar em uma pergunta que sempre volta quando falo sobre terror: por que pessoas pretas, mulheres e pessoas queer, gostamos tanto de um gênero que tantas vezes fez questão de transformar nossos corpos em problema?
A mulher que morre porque fez sexo, a pessoa negra que é descartada antes mesmo de a história começar, o corpo queer associado à perversão, à ameaça, à monstruosidade não é exatamente novidade. Carol J. Clover já tinha mostrado, em Men, Women, and Chain Saws, como o slasher organiza boa parte de seus medos em torno do corpo feminino e como a final girl surge desse lugar contraditório entre vítima, sobrevivente e figura de identificação.
E o interessante é que Acampamento Miasma conhece bem essa história. Quando pensamos em Acampamento Sinistro (1983), onde temos a identidade de Angela transformada em uma das revelações mais perturbadoras daquele período, justamente porque a diferença do corpo era apresentada como parte do horror. Ou Slumber Party – O Massacre (1982), dirigido por Amy Holden Jones, que brincava com a sexualização das mulheres e com o próprio olhar masculino, mas também não conseguia escapar completamente dele. Já Sexta-Feira 13 oferece uma referência ainda mais evidente para Schoenbrun quando se faz presente o acampamento, a estética, a estrutura de uma franquia que parece nunca chegar ao fim e, principalmente, o assassino que sempre encontra uma maneira de voltar. Acampamento Miasma recupera tudo isso, mas também brinca com essa lógica de uma propriedade que se recusa a morrer. Afinal, a própria franquia fictícia já chegou ao seu décimo quarto filme. A referência, então, não serve apenas para lembrar o que veio antes e Schoenbrun usa esse repertório para brincar com ele, desmontá-lo um pouco e perguntar o que acontece quando essas imagens são revisitadas por quem cresceu assistindo a elas, estudando seus mecanismos e percebendo também tudo aquilo que havia de errado ali.
E é aí que entra Little Death, nome que já é uma piada boa demais para ser ignorada. Uma referência à petite mort, o eufemismo francês para o orgasmo. O assassino é, portanto, batizado com uma expressão que aproxima sexo e morte, duas coisas que o slasher juntou tantas vezes. Sua própria história também evoca Angela e outras figuras do gênero que tiveram seus corpos e identidades usados para produzir o choque. Só que Schoenbrun desloca essa tradição. Little Death continua sendo uma criatura de slasher, mas agora o filme está muito mais interessado em perguntar o que acontece quando olhamos para esse monstro de outro lugar. E isso vale para Kris também, pois ela não é a cineasta queer que chega para explicar ao público como aquele filme antigo estava errado. Ainda bem. Kris gosta da franquia fictícia, gosta não, ela é fascinada por aquilo. Conhece os filmes, entende cada um e quer fazer parte dela. Ao mesmo tempo, sabe perfeitamente o que existe de problemático naquele universo. O filme encontra humor justamente nessa contradição, inclusive quando Kris comenta a decisão dos executivos de contratar uma cineasta queer para modernizar uma franquia cheia de conotações transfóbicas.
É uma situação engraçada, mas também familiar. A indústria descobre que determinada discussão está em alta, encontra alguém pertencente àquele grupo e entrega a ela uma propriedade que passou décadas fazendo exatamente o contrário do que agora pretende vender como novidade. Schoenbrun não deixa essa piada passar sem cutucar um pouco mais. Os próprios personagens ligados à indústria parecem reduzidos às funções que exercem: “Sua Agente”, “Assistente Queer”. Até uma sequência de reunião no Zoom entra nessa brincadeira com o funcionamento da indústria do horror e com essa transformação de atores, diretores e tendências em pequenas marcas reconhecíveis. E o melhor é que o filme nunca deixa a metalinguagem engolir sua própria história.
Isso fica claro na relação entre Kris e Billy, suas intérpretes, Hannah Einbinder e Gillian Anderson têm uma química deliciosa. Kris é desajeitada, curiosa, ansiosa, parece estar sempre pensando demais antes de entender o que está sentindo. Billy é mais direta, segura, sedutora, uma mulher que parece ter aprendido a esconder muita coisa atrás daquela imagem de Final Girl. As duas se encontram nesse descompasso. É bonito ver como a descoberta sexual de Kris não é tratada apenas como uma piada ou como mais uma coisa que precisa ser punida, como tantas vezes aconteceu no slasher. O desejo aqui é também uma possibilidade de descoberta e Kris vai entendendo o próprio corpo, seus medos e aquilo que quer enquanto está mergulhada num gênero que durante décadas tratou o sexo como uma espécie de sentença.
Fico pensando em como Horror Noire pode ser usado aqui como referencia também, especialmente naquela contradição tão conhecida quando a Dra Robin Coleman fala que “pessoas negras gostam de horror, mas o horror nem sempre gostou de pessoas negras”. Durante muito tempo, fomos os corpos sacrificáveis, o personagem que poderia morrer primeiro, aquele cuja existência servia para mostrar que o monstro era perigoso. E, pensando em outro slasher, The Blackening (2018/2022) pode se tornar interessante dentro dessa conversa, já que ele pega o clichê do “negro que morre primeiro”, olha para ele de frente e pergunta o que acontece quando os personagens são todos negros e conhecem as regras do jogo. Acampamento Miasma faz algo parecido, embora por outro caminho. Ele sabe que corpos dissidentes foram historicamente colocados em posições muito específicas dentro do horror e não quer simplesmente apagar esse passado, mas sim brincar com ele, deslocá-lo, encontrar novas possibilidades dentro de uma linguagem que já conhecemos. São corpos que não estão chegando no horror agora, na verdade sempre estiveram. Na plateia, nas locadoras, nas salas de cinema, discutindo mortes, monstros, final girls e assassinos mascarados. O que muda é quem pode também pegar essas referências e escrever a partir delas.
É por isso que gostei tanto da ideia de Acampamento Miasma como um filme feito por uma geração que estudou as teorias do horror e resolveu contar suas próprias histórias. Ele não tem vergonha de gostar daquilo que está criticando e não precisamos abandonar as obras que amamos quando descobrimos seus problemas. Também não precisamos fingir que eles não existem para continuar gostando delas, como disse Atticus em Lovecraft Country: “Histórias são como pessoas. Não precisam ser perfeitas para amá-las, basta tentar apreciá-las”.
E, para mim, ainda existe o fato de podermos valorizar as virtudes, perceber os defeitos e discutir esses defeitos sem precisar apagar a obra inteira. Podemos olhar de maneira crítica para aquilo que nos formou e continuar encontrando alguma coisa ali. Isso não nos impede de cobrar reparações históricas, denunciar apagamentos ou falar sobre racismo, misoginia e transfobia. Uma coisa não anula a outra. Não porque o slasher deixou de ser problemático, mas porque outras pessoas estão podendo entrar nele, olhar para suas regras e decidir o que fazer com elas.
Por fim, é lindo perceber que, dessa vez, os corpos que durante tanto tempo entraram nessas histórias para morrer também estão começando a escrever as regras.




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