Insaciável (2026)

Natalie Erika James, diretora de Relíquia Macabra (Relic, 2020), volta ao horror com Insaciável (Saccharine, 2026) e, mais uma vez, transforma uma questão bastante pessoal em matéria de pesadelo. Se em Relic o horror estava atravessado pelo envelhecimento, pela memória e pela deterioração do corpo, aqui a jovem diretora olha para a obsessão com o peso, a cultura da dieta, as medicações para emagrecer e a ideia de que nosso corpo é um problema que precisa ser constantemente corrigido. Não é por acaso que o corpo se tornou um dos grandes campos de batalha do horror contemporâneo. Nos últimos anos, filmes como A Substância (2024), Um Homem Diferente (2024) e A Meia-Irmã Feia (2025) têm usado o horror corporal para falar de beleza, envelhecimento, inadequação e da pressão para cabermos em determinados modelos físicos. O corpo deixa de ser apenas o lugar onde o horror acontece e passa a ser o próprio campo de batalha.

Insaciável entra muito bem nessa conversa. Hana (Midori Francis) é uma estudante de medicina obcecada pela própria imagem e disposta a recorrer a um método extremo para perder peso. Existe uma cultura que nos ensina a olhar para o corpo fora do padrão como um problema a ser resolvido, junto a isso, a indústria oferece pílulas, canetas mágicas, medicamentos e soluções milagrosas para um corpo que nunca parece estar bom o suficiente. É uma ideia potente, o problema é que, conforme o filme avança, comecei a me perguntar se a obra não acaba reproduzindo, em alguns momentos, justamente a lógica que pretende criticar.

Penso especialmente na maneira como Hana é filmada quando come. A câmera frequentemente se aproxima dela em zoom e transforma o ato de comer em espetáculo. Ela come de maneira afobada, descontrolada, suja, quase animalesca. E eu não consigo deixar de pensar: eu sou gorda e não como daquele jeito. A questão, portanto, não é simplesmente mostrar uma personagem gorda comendo, mas a maneira como o filme escolhe representar esse ato, construindo visualmente aquele corpo como algo excessivo, grotesco e existe uma diferença entre mostrar uma personagem comendo e fazer da comida, do corpo e do descontrole um espetáculo.

E isso fica ainda mais curioso em uma cena em que Hana é repreendida pela colega pela maneira como pronuncia a palavra “gorda”, como se até o próprio termo carregasse uma violência que precisasse ser imediatamente corrigida. Eu entendo o que a cena quer dizer e até concordo com a discussão que está por trás dela, mas a execução me causou um certo constrangimento. O diálogo é tão didático, tão preocupado em deixar explícita a posição correta sobre o assunto, que por alguns instantes parece menos uma conversa entre duas personagens e mais um discurso pronto sobre linguagem, representação e gordofobia. É como se o filme dissesse ao espectador como ele deve olhar para aquele corpo, enquanto a própria câmera continua produzindo imagens que podem ser lidas justamente através do olhar que ele pretende questionar.

Confesso que fiquei com vergonha alheia. Não porque a discussão não seja pertinente, mas porque o filme parece não confiar que ela possa existir sem explicar ao espectador exatamente o que ele deve pensar. E a coisa só piora quando o filme apresenta o pai de Hana. A maneira como ele vive nas sombras, escondido, evitando se encarar, recusando até mesmo a possibilidade de olhar para o próprio corpo, parece uma extensão bastante literal da mesma metáfora. É como se o filme dissesse “olha o que acontece quando uma pessoa passa a vida acreditando que seu corpo é algo vergonhoso, algo que precisa permanecer escondido”.

Mas há ainda Josie, amiga de Hana, interpretada pela australiana Danielle Macdonald, que me parece um problema diferente e talvez até mais curioso. Ela funciona claramente como um contraponto para Hana, como alguém que aparentemente já resolveu sua relação com o próprio corpo e pode, portanto, servir de referência para a protagonista. O problema é que Josie parece existir quase exclusivamente para cumprir essa função. Ela não chega a se desenvolver como pessoa, não temos muita coisa além daquilo que ela representa dentro da discussão, e sua presença acaba parecendo uma espécie de muleta narrativa para que o filme possa colocar em cena a “resposta certa” para os conflitos de Hana.

É uma personagem-função, quase uma personagem-espelho que está ali menos para existir por conta própria do que para contrastar com a protagonista e ajudá-la a compreender aquilo que o filme quer dizer. E isso me incomoda porque, em uma história tão preocupada em questionar a maneira como corpos gordos são vistos e reduzidos a determinadas ideias, a própria personagem gorda acaba sendo reduzida a uma ideia.

Josie deveria ampliar a discussão, mas acaba reforçando a sensação de que Insaciável está distribuindo funções dentro de um argumento. Hana representa o corpo que se odeia, o pai representa o corpo que se esconde e Josie representa o corpo que aparentemente se resolveu. E, quando os personagens começam a funcionar dessa maneira, fica cada vez mais difícil enxergar pessoas ali. E não vou nem entrar no mérito do quão absurda é a figura que funciona como perturbação espiritual e assombração de Hana.

Talvez seja isso que torne tudo ainda mais constrangedor. O filme quer criticar a forma como corpos são transformados em objetos de julgamento, mas ele próprio parece transformar suas personagens em exemplos de diferentes maneiras de existir dentro desse debate. A ideia é boa e aprecio isso, mas o problema, para mim, é que o longa parece ter pouca confiança na imagem e muita necessidade de explicá-la. O pai literalmente vive no escuro porque não consegue se olhar. A colega precisa explicar a Hana como ela deve falar sobre corpos gordos. A câmera, por sua vez, transforma o ato de comer em uma espécie de espetáculo grotesco. Em vários momentos, tudo parece apontar para a mesma conclusão ao mesmo tempo.

Isso me fez lembrar de toda a discussão em torno de A Baleia (Darren Aronofsky, 2022), quando também havia ali uma intenção de falar sobre solidão, culpa, compulsão, sofrimento e desejo, mas o filme foi bastante questionado pela maneira como construía o olhar sobre o corpo gordo. Os enquadramentos, a maquiagem, a associação entre gordura, doença e degradação e a transformação daquele corpo em espetáculo. A questão nunca foi simplesmente se o filme “fala mal” de pessoas gordas, mas o que acontece quando o cinema decide que esse corpo precisa ser mostrado de determinada maneira para que a história produza impacto. E aí eu volto para Insaciável e pergunto: estamos vendo a violência de um olhar que o filme pretende criticar ou estamos sendo colocados dentro desse mesmo ponto?

E, convenhamos, uma coisa é mostrar como a sociedade ensina uma pessoa gorda a enxergar o próprio corpo como monstruoso. Outra é usar essa monstruosidade como parte do mecanismo pelo qual o filme produz seu horror. E não acho que isso invalide a metáfora da cultura da dieta. Pelo contrário. Talvez a própria animalização faça parte do que o filme está tentando mostrar. Quando passamos tanto tempo ouvindo que nosso corpo é excessivo, errado, descontrolado, acabamos internalizando a ideia de que há alguma coisa de fundamentalmente inadequada nele. O problema é que existe uma linha muito delicada entre representar essa violência e reproduzi-la. Quanto mais a história avançava e se desenvolvia, mais eu ficava constrangida. 

Talvez o meu maior problema com o filme seja o excesso de preocupação que ele tem em  em garantir que entendemos sua crítica. O que acaba retirando dela parte da ambiguidade que poderia torná-la realmente perturbadora. O horror corporal talvez seja justamente um gênero que não precise explicar tanto, pois o corpo já está ali. A transformação, a deformação, o desconforto de olhar para ele já carregam uma série de significados. Quando o filme explica demais o que aquela imagem significa, ele acaba diminuindo o espaço para o espectador completar o horror por conta própria. Quando a câmera insiste nesse corpo como grotesco, até que ponto estamos vendo a violência do olhar social e até que ponto estamos simplesmente compartilhando desse olhar?




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