A Useful Ghost - Uma Ajuda do Além (2025)

Não é exagero dizer que A Useful Ghost – Uma Ajuda do Além é um dos filmes mais inventivos do ano. Vencedor da Semana da Crítica em Cannes, o primeiro longa de Ratchapoom Boonbunchachoke parte de uma premissa que, nas mãos de muita gente, renderia apenas uma boa piada. Observe: depois de morrer em decorrência de uma doença respiratória, Nat (Davika Hoorne) retorna como o fantasma de um aspirador de pó para continuar ao lado do marido, March (Witsarut Himmarat). Se alguém me contasse essa história antes da sessão, eu provavelmente acharia graça da ideia e seguiria em frente. O curioso é que Boonbunchachoke a trata com tamanha honestidade que, em poucos minutos, eu já não estava mais tentando entender como aquilo era possível. Só queria que March encontrasse uma forma de continuar ao lado da mulher que amava.

Talvez seja esse o primeiro grande acerto do filme. Em vez de perder tempo tentando nos convencer de que um aspirador pode ser habitado por um fantasma, Boonbunchachoke simplesmente aceita essa regra e segue adiante. Sem perceber, fazemos o mesmo. Logo parece perfeitamente natural que um técnico identifique um eletrodoméstico assombrado, que uma fábrica precise lidar com espíritos ou que um morto continue ocupando espaço na vida de quem ficou. O sobrenatural não chega para substituir a realidade, mas para dividir espaço com ela.

Quem cresceu vendo horror asiático provavelmente ainda guarda alguma lembrança de Espíritos - A Morte Está ao Seu Lado (2004). Não apenas pelos sustos, mas por aquele trauma causado graças a uma simples dor nas costas. Quem viveu, sabe. Boonbunchachoke parte dessa tradição de fantasmas tão presente na cultura tailandesa, mas opta por seguir um caminho onde seus espíritos raramente existem para assustar. Eles permanecem porque ainda há algo que os prende ao mundo dos vivos e, quanto mais o filme avança, mais essa permanência deixa de parecer uma maldição e passa a soar como uma forma de amor.

Essa ideia aparece desde a primeira sequência. Antes mesmo de conhecermos March e Nat, acompanhamos um jovem interpretado por Wisarut Homhuan que, com um humor irresistível, se apresenta como um "travesti acadêmico". Incomodado com a poeira que invade seu apartamento por causa da poluição de Bangkok, ele compra um aspirador novo e logo na primeira noite, acorda com alguém tossindo dentro do quarto. Quem aparece para consertar o aparelho é Krong (Wanlop Rungkumjad), um técnico que chega rápido demais para uma visita comum e que, aos poucos, começa a contar a história de March e Nat. Gosto muito dessa escolha. Em vez de entrar direto na trama principal, o diretor faz um pequeno desvio, como quem nos convida a entrar naquele universo antes de revelar seus personagens. A sequência é engraçada, estranha e discretamente melancólica. Também anuncia algo que o filme nunca abandona: a poeira, o luto, o trabalho e os fantasmas que, apenas passam a habitar aquele mundo.

Uma das coisas que mais me divertiram em A Useful Ghost foi nunca saber exatamente para onde ele estava indo. Sempre que eu achava que a história finalmente tinha encontrado um caminho, ela mudava de direção outra vez. Um chamado para consertar um aspirador se transforma numa história de amor interrompida. Depois vira um drama familiar. Em seguida, uma sátira sobre relações de trabalho onde há um operário morto que se recusa a deixar a fábrica onde perdeu a vida e Suman (Apasiri Nitibhon), mãe de March e agora responsável pelos negócios da família, tentando administrar uma fábrica assombrada enquanto descobre que a nora morta talvez seja mais útil dentro de um aspirador de pó do que jamais foi em vida. No meio disso tudo, ela ainda precisa dizer ao filho, com toda a seriedade do mundo: "por favor, pare de transar com o seu aspirador de pó".

É difícil não rir dessa cena, porém o mais interessante é perceber como o riso nunca esvazia o que ela carrega. Pelo contrário. Quanto mais o filme nos faz baixar a guarda, mais ele encontra espaço para falar de luto, de desejo e da dificuldade de deixar alguém partir. Em momento nenhum March parece apaixonado pela excentricidade da situação. Ele continua apaixonado por Nat. Parece um detalhe, mas é justamente isso que impede a premissa de desabar. A gente não compra a ideia de um fantasma vivendo dentro de um aspirador, a gente compra o amor de alguém que se agarra à única forma que encontrou de permanecer ao lado da pessoa que perdeu.

Talvez seja por isso que o filme mude tanto de forma sem nunca parecer perdido. Aos poucos fui percebendo que Boonbunchachoke parecia recusar qualquer estabilidade porque o próprio mundo que retrata também nunca encontra uma. A narrativa parece partir do princípio de que a forma precisa ser tão instável quanto esse mundo. Fantasia, romance, comédia absurda, horror e comentário político coexistem sem disputar protagonismo. Em vez de organizar tudo em compartimentos, o diretor deixa que essas camadas se contaminem o tempo inteiro. Um momento de humor desemboca numa tristeza inesperada. Uma cena romântica revela um conflito trabalhista. Um fantasma faz rir antes de nos lembrar de uma ferida que continua aberta.

Foi mais ou menos na metade do filme que percebi uma mudança curiosa. Eu já não estranhava a ideia de uma mulher vivendo dentro de um aspirador de pó. Também já aceitava sem esforço que fantasmas trabalhassem, aparecessem em sonhos ou fossem assunto de reuniões de diretoria. Quem tinha mudado era eu. O estranho já não estava nos mortos, mas nos vivos. E vi que a poeira ganha outro peso na historia quando ela parece apenas um detalhe daquele apartamento. Depois descobrimos que foi justamente ela quem matou Nat e continua adoecendo trabalhadores todos os dias. O fantasma do operário deixa de parecer apenas uma presença sobrenatural e passa a carregar uma pergunta bastante concreta: o que acontece com as vidas que um sistema prefere esquecer para continuar funcionando?

Essa pergunta atravessa também outro personagem quando percebe também que Nat pode ser útil ao conseguir entrar nos sonhos das pessoas. Ajudando, ao mesmo tempo a resolver os problemas da fábrica e os problemas políticos do ministro. Confesso que ri quando essa ideia apareceu, mas dois minutos depois ela já não tinha graça nenhuma ao cair a ficha que os mortos continuam sendo avaliados e explorados pelo que ainda podem produzir.

Há outra camada que atravessa o filme inteiro e que me parece impossível ignorar. Desde a abertura, Boonbunchachoke povoa essa história de personagens queer sem jamais tratá-los como exceção. O "travesti acadêmico" é apresentado com a mesma naturalidade que qualquer outro personagem. Mos, irmão de March, vive um casamento homoafetivo que nunca precisa ser justificado pela narrativa. O estranhamento nunca parte do filme e sim das instituições que tentam enquadrar tudo aquilo que escapa à norma. Isso fica especialmente evidente quando um psiquiatra pergunta a March se o casamento do irmão teria alguma relação com sua incapacidade de abandonar Nat. A pergunta é absurda, mas revela uma necessidade quase compulsiva de transformar qualquer experiência dissidente em desvio. Pouco depois, March é submetido a sessões de eletrochoque para apagar da memória a mulher que perdeu. Gosto que o filme nunca explique essa imagem. Ela pode remeter às violências das ditaduras, às terapias de conversão ou às duas coisas ao mesmo tempo. Em qualquer uma dessas leituras, a lógica é eliminar aquilo que incomoda em vez de compreender por que incomoda.

E nesse lugar que essa história de amor encontra a história da Tailândia. Embora nunca transforme sua narrativa em uma aula de história, Boonbunchachoke dialoga diretamente com um país que passou décadas tentando lidar com golpes militares, censura e sucessivas tentativas de controlar a própria memória. As referências ao massacre da Universidade Thammasat, em 1976, e à repressão aos protestos dos Camisas Vermelhas, em 2010, aparecem como ecos que moldam o filme sem nunca interromper seu fluxo. São acontecimentos que continuam produzindo fantasmas. Quando um país tenta apagar seus mortos, remover monumentos ligados à democracia e transformar o esquecimento em política de Estado, talvez o fantástico seja a única maneira de fazer essas presenças continuarem falando. Quanto mais eu pensava nisso, mais fazia sentido que o filme perguntasse a March se era possível esquecer Nat. A pergunta íntima e a pergunta política parecem nascer exatamente do mesmo lugar.

Foi pensando nessa ideia que lembrei de Atlantics, filme de Mati Diop onde os mortos voltam para cobrar uma dívida que jamais foi paga, como se a própria história se recusasse a aceitar o esquecimento. Essa mesma inquietação me levou também a O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, onde o passado continua circulando por pessoas, edifícios e ruas mesmo quando ninguém parece disposto a falar sobre ele. A Useful Ghost conversa com os dois não porque conte histórias parecidas, mas porque parte da convicção que existem acontecimentos que simplesmente se recusam a virar passado. Além do uso do fantástico que surge para tornar a realidade ainda mais visível. 

Foi em casa que assisti ao filme, ao lado do meu marido, e percebi que a conversa continuou muito depois dos créditos. Voltávamos sempre às mesmas perguntas. Estávamos falando sobre uma história de amor? Sobre uma crítica ao capitalismo? Sobre memória? Ou sobre a forma como tudo isso se misturava? Quanto mais conversávamos, mais eu tinha a impressão de que Boonbunchachoke nunca separa forma e conteúdo. Seu filme muda de direção o tempo inteiro porque o mundo que retrata também nunca encontra estabilidade. 

No fim das contas, a ideia de uma mulher vivendo dentro de um aspirador de pó acabou se tornando o aspecto menos estranho de A Useful Ghost. O que continuava realmente difícil de aceitar era um mundo que naturaliza trabalhadores descartáveis, transforma o esquecimento em política, patologiza o afeto e mede até os mortos pela utilidade que ainda podem oferecer.

Estranhos nunca foram os fantasmas. Estranhas sempre foram as estruturas que insistimos em chamar de naturais. 



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