Antártida: quando o filme explica mais do que consegue fazer sentir

Em Antártida, longa de 2026 dirigido por Bruno Safadi e escrito por Cláudia Jouvin, uma estação brasileira de pesquisa no continente gelado, isolada durante o inverno, reúne cientistas e militares que terão de conviver por meses num espaço fechado e sob condições extremas. Na primeira noite, Inês (Marina Ruy Barbosa) é vítima de uma violência brutal e, sem possibilidade de simplesmente sair dali ou esperar que alguém de fora resolva o problema, a base inteira passa a funcionar como uma espécie de circuito fechado de suspeitas. A subcomandante Elisabeth (Andréa Beltrão) assume a investigação, enquanto as mulheres da estação tentam lidar com o medo, o silêncio e uma violência que já estava ali antes mesmo de o crime acontecer.

Existe uma boa ideia no centro de Antártida, uma premissa que praticamente pede para ser um thriller claustrofóbico. O frio lá fora, o confinamento ali dentro, a hierarquia militar, homens e mulheres obrigados a continuar dividindo o mesmo espaço depois de uma violência, a impossibilidade de fuga. Tem coisa demais aí para não render alguma coisa. O problema é que o longa parece muito mais interessado em contar ao espectador o que está acontecendo do que em fazê-lo sentir, começando pelos diálogos. Há momentos em que os personagens parecem menos pessoas conversando e mais porta-vozes de um roteiro ansioso para deixar sua posição muito clara. A cena começa, alguém explica a situação, outro personagem explica o que aquilo significa, alguém reforça por que aquilo é importante e, quando a imagem finalmente poderia fazer seu trabalho, vem mais uma fala para garantir que ninguém tenha entendido errado. São cenas profundamente pedagógicas, e eu tenho cada vez menos paciência para filmes que confundem clareza com explicação.

Não tenho problema algum com cinema político, muito pelo contrário, a questão aparece quando o discurso substitui a construção dramática e Antártida quer falar sobre violência contra a mulher, relações de poder, machismo, hierarquia e solidariedade feminina, mas frequentemente transforma essas questões em frases de efeito. O resultado é um feminismo de superfície, bastante próximo de um discurso liberal que parece saber exatamente quais palavras precisam ser ditas, mas nem sempre sabe o que fazer com as mulheres que estão dizendo essas palavras. E isso fica ainda mais desconfortável quando olhamos para as personagens negras. O filme parece saber que precisa incluí-las nessa conversa, mas não demonstra a mesma sensibilidade para construir suas experiências, subjetividades e conflitos. Em vez de personagens que possam existir para além da função que desempenham dentro do debate, muitas vezes elas parecem estar ali para ajudar o filme a formular sua tese. É uma diferença importante, porque representatividade não resolve, sozinha, a maneira como uma personagem é escrita.

O problema mais grave, a meu ver, está justamente na parte em que Antártida aborda uma história de violência, mas em determinado momento parece esquecer que existe uma vítima no centro dela. Inês corre o risco de se transformar em mecanismo narrativo, seu sofrimento serve para colocar a engrenagem do mistério em movimento, distribuir suspeitos e fazer Elisabeth investigar. A violência que deveria alterar profundamente aquele espaço acaba sendo absorvida pela lógica do whodunnit. Quem fez? Quem está mentindo? Quem tinha motivo? Qual deles é o culpado? O suspense passa a ocupar tanto espaço que a própria experiência da vítima vai ficando para trás. E há algo ainda mais incômodo nessa escolha, que é quando a obra sugere contar com uma empatia automática do espectador por Inês, como se a maneira como ela é apresentada já fosse suficiente para produzir essa identificação. Jovem, branca, vulnerável, colocada na posição inequívoca de vítima e questionada desde o início sobre sua capacidade, ela carrega consigo todos os códigos visuais e narrativos que o cinema tradicionalmente utiliza para nos dizer por quem devemos sentir compaixão. Só que empatia não deveria ser uma garantia oferecida pela aparência da vítima, ela precisa ser construída, sobretudo quando o filme se propõe a discutir violência e as estruturas que a tornam possível.

Isso fica ainda mais problemático porque, enquanto o sofrimento de Inês é utilizado como motor para a investigação, outras personagens, especialmente as mulheres negras, não recebem o mesmo cuidado na construção de suas experiências. É como se o filme soubesse muito bem como nos apresentar uma vítima que deve ser imediatamente reconhecida como vítima, mas tivesse bem menos interesse em investigar as diferentes formas pelas quais a violência atravessa mulheres que não ocupam esse lugar tão confortável dentro do imaginário cinematográfico. No caso de um filme que pretende discutir justamente a cultura do silêncio em torno da violência contra mulheres, a contradição é difícil de ignorar. Antártida quer que eu me preocupe em descobrir quem violentou Inês, mas não consegue me fazer sentir que está igualmente interessado em Inês.

O mais frustrante é que o isolamento poderia resolver parte desses problemas sem que o roteiro precisasse explicar tanto. Basta pensar em filmes como O Enigma de Outro Mundo, em que o confinamento transforma a própria dúvida em ameaça, ou mesmo em produções brasileiras como O Animal Cordial, que entendem como um espaço fechado pode reorganizar relações de poder e fazer a tensão nascer da convivência. Ou, até mesmo Propriedade, de Daniel Bandeira, que também encontra na violência e no confinamento uma maneira de fazer o espaço participar ativamente da narrativa. 

E digo mais, em Antártida, a Antártida é quase um cenário esperando para ser utilizado, isso é particularmente curioso porque existe um investimento tecnológico considerável justamente na construção desse cenário. Grande parte do filme foi realizada em estúdio virtual, com tecnologia Unreal, combinando ambientes digitais, cenários físicos e imagens captadas na Patagônia. Só que a possibilidade de criar uma Antártida convincente visualmente não significa necessariamente conseguir criar uma experiência de Antártida. O filme mostra o frio, mas raramente transmite o frio, mostra a imensidão branca, mas quase nunca produz a sensação de estar preso dentro dela, mostra uma base isolada, mas não deixa o isolamento contaminar verdadeiramente a narrativa. E assim vai se criando uma espécie de paradoxo, já que a câmera está frequentemente ocupada demais registrando as atuações, os diálogos e as informações para observar a situação. Eu vejo atores interpretando pessoas sob pressão, mas nem sempre sinto que aquelas pessoas estão sob pressão. Que loucura!

Já que falamos de elenco, essa é uma das partes de maior desperdício nessa produção. Um elenco cheio de gente boa, mas que diversas vezes passa a sensação de que não sabem muito bem o que estão fazendo. Andréa Beltrão, especialmente, encontra caminhos para dar alguma densidade à Elisabeth mesmo quando o roteiro entrega pouco. Há nela uma autoridade e uma vulnerabilidade simultâneas na maneira como ocupa a personagem, ela é, para mim, o melhor argumento de Antártida contra o próprio texto. Leandra Leal também consegue sustentar momentos difíceis, e Marina Ruy Barbosa tem uma função particularmente ingrata dentro da narrativa. Lázaro Ramos, Antônio Calloni, Mariana Sena, Gero Camilo, João Vitor Silva e os demais atores formam um grupo de nomes que poderia fazer muito mais se tivesse personagens mais bem desenvolvidos e diálogos menos genéricos. Há um limite para o que uma atriz ou um ator consegue fazer quando o roteiro já decidiu por eles o que precisam sentir, pensar e dizer.

No fim, o que sobra é uma produção que tinha material para ser muito mais inquietante do que é. A ideia de colocar um grupo de pessoas dentro de uma base isolada, sob uma estrutura de poder rigidamente organizada, depois de um crime cometido contra uma mulher, é forte. A possibilidade de transformar aquele espaço num microcosmo de uma sociedade que reproduz violência, silêncio e proteção aos homens também é forte. O que falta é justamente transformar essas boas ideias em experiência, fazer com que o confinamento pese, que a violência reverbere e que aquelas relações produzam alguma coisa além das explicações que o roteiro insiste em oferecer. Para conferir essa superprodução brasileira, vá aos cinemas a partir de amanhã, 17 de setembro. 




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